Posted on 04-07-2008
Filed Under (Brasil, Celebridades, Pop, TV) by Ana Freitas

A TV mente. De maneira extraordinariamente surpreendente, o único meio de comunicação que seria, em tese, inquestionável - já que trabalha com o que se pode ver e ninguém duvida daquilo que vê com os próprios olhos - é o mais fake de todos.

A TV é ruim. A produção televisiva de canal aberto é relativamente fraca, pobre, literalmente risível dado os absurdos que a gente vê. Alguns canais são tão toscos que vira tudo um grande bloco de programa humorístico não-intencional.

Acontece o seguinte: não sei se vocês já perceberam, mas alguns programas simplesmente não fazem sentido. Algumas produções de TV, apesar de supostamente tratarem da realidade, partem de uma premissa totalmente absurda. E ninguém fala disso.

Vamos conhecer agora os 5 programas de TV que, descaradamente não fazem nenhum sentido (mas ninguém fala nada sobre isso e todo mundo finge que tá tudo OK):

5. O Jogador (Record), Nada Além da Verdade (SBT) e qualquer jogo de perguntas e respostas cujos participantes são artistas

britto junior e ana hickman
Oi.

Vamos dividir a sociedade em dois times:

- Time das pessoas anônimas;
- Time das pessoas que trabalham na TV;

Na nossa competição, ganha a equipe com o maior capital de dinheiro acumulado. Você sabe a resposta?
Ok, ignorem as variáveis e sejam práticos: atores de novelas, cantores, apresentadores - essas pessoas ganham dinheiro. Muito. E se não muito, é bem mais que você.
Então não faz sentido nenhum colocá-las em um programa de perguntas e respostas pra que eles possam ganhar ainda mais dinheiro, eletrodomésticos e outras coisas. Não faz nenhum sentido, já que elas poderiam facilmente comprar todas essas coisas com O DINHEIRO QUE JÁ GANHAM TRABALHANDO.
Como costuma dizer meu pai, o mundo está tão de ponta-cabeça que as pessoas que têm grana são as que ganham coisas de graça e não pagam pra entrar nos lugares, o que também não faz nenhum sentido.
Mas eles são artistas, a gente vai lá, assiste, torce por eles e beleza. É nóis.

4. Quebra-galho (MTV)

Esse programa é um mezzo-reality-show mezzo-programa-descolado da MTV. Funciona assim: vai um fulano lá e diz que quer alguma coisa. Varia; tem o cara que quer andar de skate, o que quer ser emo, o que quer fazer uma reforma no apê… a proposta da MTV é escalar um ‘especialista’ naquela coisa, e dar 50 reais pro fulano aspirante a algo conseguir o que ele quiser.

Até aí, beleza. Mas quem já viu sabe que ESSA-PORRA-NÃO-FUNCIONA. Todas soluções encontradas em todos os programas custam bem mais de 50 reais, mas aí vai o tal especialista lá e diz que conseguiu que o dono do estabelecimento vendesse coisas por 1/18 do preço original. Todos sorriem, talvez celebrando a sorte e o bom coração desse comerciante, e os espectadores vibram. Além disso, quase nunca a pessoa realmente se torna (na vida real, pra sempre) aquilo a que havia se proposto. Por coincidências, tive oportunidade de conhecer três infelizes que se submeteram à suposta transformação. Nenhum dos três logrou sucesso ou estendeu a tal ‘mudança’ pro dia-a-dia. Quebra-galho? Pffff.

3. Casos de Família com Regina Volpato (SBT)

Ah, o grande clássico das tardes entediadas. Como não mencionar as discussões enriquecedoras da televisão brasileira, que esmiuçaram temas de interesse da humanidade, como ‘minha mãe transformou nossa casa num lixão‘, ‘minha família não aceita meu estilo‘, ‘eu não agüento as piadas do meu sogro‘, entre outros grandes questionamentos.

Importantíssimo destacar a desenvoltura e simpatia da apresentadora Regina Volpato, que se envolve de corpo, alma e coração nos dramas e dilemas dessa gente sofrida que vai ao programa em busca de solução. Olha só, encontrei inclusive um vídeo comovente, homanegeando a sabedoria dessa grande profissional, feito pelo fã-clube de Regina Volpato (PUTA MERDA, CLICA QUE EU NÃO TÔ ZUANDO!)

Ok. Não tá óbvio PRA TODO MUNDO que eles recebem cada um 15 contos pra mentir nesse programa?


Na mesma linha, programa Márcia Goldschmidt, com um dos meus temas preferidos: “Mulher pede ajuda: ‘meu marido não toma banho!’”

2. Malhação

malhação 1996 logoComecemos analisando o nome da novelinha. ‘Malhação’ iniciou como uma série cuja trama se passava em uma academia. O Vídeo Show nos ajuda a relembrar no vídeo aí embaixo. Ah, como o Mocotó aprontava (e pesava 40 quilos a menos).

De alguma maneira alquímica, Malhação se transformou numa novela que não tem nada a ver com Malhação. Não. Se passa numa escola.  E não tem nada de academia. Sinto falta de cantarolar ‘ainda vai levar um tempo / pra curar o que feriu por dentro…’

Tirando isso, a Malhação é o retrato mais inverossímil possível da juventude brasileira, mas a mesma juventude continua dando audiência pra essa novela. Mas o motivo é óbvio: eles querem que os pais fiquem pensando que eles não usam drogas, não matam aula pra tomar cerveja (e só tomam suco, isso depois que o sinal bate) e são maduros como alguém de 25, mesmo tendo 16. Para isso, fingem se identificar com um programa que une todas essas características. Brilhante! Sem contar os alunos que passam 6 anos no ensino-médio, os vilões e mocinhos, as armações estudantis e todo o resto.


Mocotó saiu da Malhação, acabou com 50 quilos a mais. RÁ! Got it?

1. Domingão do Faustão
Eu não preciso explicar, né? Um tio sem graça que interrompe os entrevistados o tempo todo, globais comendo pizza e gente empilhando cadeiras no queixo em até 30 segundos. O líder de audiência do show de horrores da TV de domingo tem um dos maiores salários da televisão brasileira: mais de R$1 milhão de reais por mês. OLÔCO, MEU! BRINCADÊRA! Sem contar que o Domingão do Faustão guarda o maior enigma da TV do país, um tema que é até tabu, já que todo mundo já vIu tanto que nem nota a estranheza da cena: QUEM, EM NOME DE DEUS, SÃO AQUELAS PESSOAS CUJOS NOMES ELE LÊ NO PAPELZINHO ANTES DAS CASSETADAS? E PORQUÊ ELE FAZ ISSO?

faustão
Ih. Boa pergunta!

Posted on 03-07-2008
Filed Under (Há mais entre o céu...) by Ana Freitas

Meu truta Marcus, do Grande Abóbora, que me perdoe, mas vou me antecipar a ele e explicar por que diabos um Deus onisciente é um conceito que se opõe ao livre-arbítrio (ele questiona isso no fim do post). Apesar de ser um pouco óbvio pra quem já parou pra pensar, sempre existe aqueles que nunca pararam.

Essa pergunta foi uma das primeiras que eu me fiz na escola católica em que estudei dos 10 aos 15 anos. Vamos analisar os conceitos:

  • Onisciência significa que Deus sabe tudo. TUDO. Mesmo. Tudo o que aconteceu e tudo o que vai acontecer. Ever. Mais que o Quiroga, por mais surpreendente que pareça.


Sauron é uma representação gráfica mais precisa de Deus do que aquela pomba voadora. Se bem que a pomba é o espírito santo… eu não sei bem como é deus, não.

  • Livre-arbítrio é um conceito que parece muito bonito. É o nosso direito de fazer o que quiser da vida, sem que Deus nos impeça. É a imprevisibilidade dos nossos atos, e a nossa responsabilidade pelas conseqüências deles. Uma puta liberdade. Mas é que nem, tipo, o comunismo, ou então a CPMF. Explicando parece fantástico. Só que na prática não funciona.

Ele, e depois eles aí em cima, já cantavam uma espécie de livre-arbítrio há um tempão. O primeiro de um jeito mais legal, claro: “Do what thou wilt shall be the whole of the Law.”*

Se Deus sabe de todas as coisas, então Deus já sabe o que você vai fazer antes que você faça. E nem pense em mudar de idéia na última hora, pois o canalha também tá ligado. É, mano. Você tá indo com a farinha, Deus tá voltando com o bolo já confeitado.

Supondo que Deus já saiba exatamente o que você vai fazer antes que você faça, isso de alguma maneira significa que o livre-arbítrio não exatamente funciona. Não existe imprevisibilidade de atos nem de conseqüências, porque o Cara já sabe de tudo. Aí fica chato, né? Ninguém quer um destino já escrito. É como fazer um mochilão e ter que ir só a lugares pré-selecionados, na ordem certa. E sem sequer perceber que está fazendo tudo porque está num itinerário pré-fabricado.

Ainda bem que, na verdade, esses conceitos não podem ser analisados assim, de maneira racional. Não tenho religião, e apesar da Bíblia ser um puta livro, ela tem umas contradições bem absurdas, e essa é uma delas. Mas essa contradição surge, especialmente, da nossa ingenuidade de querer interpretar o conceito de onisciência de ‘deus’ (veja bem, aqui não me refiro ao deus católico, falo de um ‘algo’ que governe as regras do universo – o ‘grande arquiteto’) dentro das nossas limitações mentais – não conseguimos conceber que ao mesmo tempo que somos livres para fazermos o que quiser, já se sabia o que faremos antes de fazermos (congratulem minha exímia habilidade em conjugar verbos), embora isso talvez seja absolutamente concebível em um espaço-tempo diferente do nosso. Ou não.

Ao misturar ‘livre-arbítrio’ a que temos direito com a onisciência das ‘leis do universo’ e colocá-los para brigar, esbarramos na questão da vida, do universo e de todas as coisas, cuja resposta é 42 – mas cuja pergunta ainda estamos longe de descobrir.

*Apesar da frase parecer ter um algo de ‘livre-arbítrio’, essa citação do Crowley é relacionada à Thelema, a ‘vontade verdadeira’, teorizada por ele e vendida como carne de segunda nesses livros que ensinam ‘O Segredo’. Mais info no Google. Ou aqui.

Enquanto isso, no MSN.com:

Alguém pode me dizer o que há de misterioso em alguém morrer após cair do nono andar? Não vejo nenhum mistério nisso. Misterioso teria sido se ela tivesse sobrevivido a uma queda do nono andar. Ou se tivesse brotado sangue dos azulejos do banheiro dela.